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Qua, 05 de Fevereiro de 2014 13:35

Quando o sucesso sobe à cabeça, a carreira entra em crise. Veja como manter o ego sob controle

 

Complexo de Adão. Já ouviu o ter­mo? É uma expressão que a con­sultora de carreira Rosa Bernhoeft, da Alba Consultoria, em São Paulo, gosta de usar informalmente, para classificar um comportamento tão comum quanto nocivo no universo cor­porativo: "O profissional age como se fos­se o primeiro homem do mundo, sem o qual nada mais existiria". Sabe aquela pes­soa que tem ego de sobra? É isso. Pode ser um traço de personalidade ou uma atitu­de desenvolvida ao longo da trajetória pro­fissional, à medida que o indivíduo ascen­de rápido na profissão, ganha muito di­nheiro ou apresenta resultados acima da média, o que acaba distorcendo seu con­ceito de poder. "De qualquer maneira, re­vela imaturidade e pode prejudicar a re­lação com o chefe, pares e subordinados e colocar a carreira em risco", alerta Sônia Gonzalez, gerente da divisão de executi­vos da DM Recursos Humanos, também na capital paulista.

O paulista Guilherme Steinhauser, de 32 anos, sabe bem do que Sônia está

falando. Com apenas 22 anos ele resolveu abrir seu próprio negócio, uma loja de equipamentos de áudio, em Ribeirão Pre­to. Ele trabalhava há quatro anos nessa área, como vendedor. Ganhava o dobro dos colegas que exerciam a mesma fun­ção, tinha o nome consolidado no mer­cado e achava que nada poderia detê-lo.

 

Mas acabou quebrando a cara. "Agi de ma­neira extremamente arrogante com o mer­cado, achando que todas as portas se abri­riam imediatamente para mim e que não haveria dificuldade capaz de abalar meu talento", conta Guilherme. "Não me pre­parei, por exemplo, para a tarefa de lidar pessoalmente com os clientes e para a con­corrência cruel." Resultado: em menos de cinco anos ele fechou a loja, depois de en­frentar uma crise financeira que poderia ter sido evitada se tivesse agido com mais cautela e humildade. "O fato de o merca­do ser pequeno e demandar bons profis­sionais me fez crer que não haveria páreo para mim naquele momento."

Depois do susto, Guilherme voltou a trabalhar como vendedor e hoje é geren­te de vendas da Oneal Áudio, empresa que fabrica equipamentos de áudio profissio­nal, com sede no Paraná. Ao contrário do que fazia como empreendedor, ele já não age como se tivesse visto tudo e dominas­se o negócio. Pelo contrário. Procura co­nhecer melhor seus clientes e fornecedo­res e abandonou o discurso prepotente. "A lição foi sofrida, mas hoje me policio para baixar a bola quando necessário."

 

Na dose certa

 

No ambiente corporativo, autoconfiança e agressividade ajudam a encarar novos desafios, superar obstáculos e cumprir metas. Por isso mesmo, há situações em que uma atitude altiva é valorizada pela organização. O problema é quando o pro­fissional perde o controle. Quem desqua­lifica os outros e se ilude, achando que é auto-suficiente, termina cavando o pró­prio fracasso. "A falta de interação, questionamento e avaliação do próprio de­sempenho leva inevitavelmente à perda de produtividade. O profissional não procura se superar e paralisa seu cresci­mento", afirma a consultora Rosa Bernhoeft. No caso do paulista Marcos Minoru, de 40 anos, a tal arrogância adiou uma oportunidade de promoção, na época em que trabalhava na extinta con­sultoria Arthur Andersen. "Por ter mais experiência do que os meus colegas, me julgava pronto para passar de consultor a gerente. A notícia andava pelos corre­dores e eu já estava comemorando, agin­do como se fosse superior", lembra Mar­cos. "Na hora H, meu chefe vetou meu nome para o cargo."

 

O chefe explicou que, embora Marcos tivesse as condições técnicas para a posi­ção, faltava amadurecer e aprender mais sobre liderança. O executivo ficou frustra­do, mas aceitou a crítica e procurou mudar o comportamento. Aprimorou o re­lacionamento com a equipe, passando a interagir e a ouvir mais, sem tanta preo­cupação em se destacar. Um ano depois, conquistou a promoção desejada. Hoje, como gerente de desenvolvimento em re­cursos humanos na Bombril, em São Pau­lo, Marcos sabe que é importante ter cons­ciência de que é bom no que faz e mani­festar isso, mas com equilíbrio, sem exa­gerar nos pontos fortes e ignorar que exis­tem pontos fracos.

 

Adeus, emprego

 

Geralmente, só depois de levar um ba­que, como aconteceu com Guilherme e com Marcos, é que o egocêntrico se en­xerga como tal. "A maioria desses profis­sionais são jovens executivos, que deco­lam depressa na carreira e se deslumbram com a responsabilidade que assumem, com o status e com a remuneração, sem ter experiência de vida suficiente para li­dar com isso", afirma a consultora Sônia Gonzalez. Às vezes, dá para evitar maio­res estragos. Às vezes, não. "Quando iden­tificamos esse tipo de atitude na empre­sa, o primeiro passo é abrir o jogo com o funcionário e incentivá-lo a corrigir a própria atitude. Caso não funcione, a saí­da é desligá-lo", diz Adriano Lima, vice-presidente de recursos humanos da Mastercard para a América do Sul.

 

Se no dia-a-dia de trabalho o ego in­flado representa um grande risco, na ho­ra de batalhar por um emprego não é diferente. Adriano Lima lembra que che­gou a rasgar o currículo diante de um candidato durante uma entrevista, ta­manha a arrogância e o alarde do rapaz acerca das próprias glórias. "Por insegurança e ansiedade para conquistar a va­ga, alguns profissionais exageram na des­crição de suas realizações e sucessos e acabam perdendo a credibilidade", afir­ma. Em tempo: o candidato foi repro­vado na seleção, mas deixou a sala agradecendo a Adriano pelos toques valio­sos sobre a importância de manter a ar­rogância sob controle.

 

Ele se acha...

 

Conheça a atitude típica do profissional egocêntri­co e arrogante

 

• Adora a primeira pessoa. O discurso é recheado de "Eu".

 

• Fala mais do que escuta. Pode mostrar indiferença enquanto está calado, mas na verdade espera uma oportunidade para destilar o veneno.

 

• Faz questão de aparentar calma e otimismo em situações de pressão. No fundo, quer demonstrar que nada o atinge nem o preocupa.

 

• Tende a rotular atitudes, resoluções e ideias como “certas" e "erradas" em vez de propor uma discussão que aprofunde e aprimore o conceito exposto.

 

• Evita elogiar uma tarefa bem-feita ou um resultado positivo que não tenha sido alcançado por ele ou, pelo menos, que tenha um toque seu.

 

• Simula indiferença diante de boas ideias propostas por outra pessoa — para disfarçar o fato de que não havia pensado nisso.

 

Baixe a bola

 

Se você se reconheceu no quadro anterior, veja como mudar de atitude

 

• Monitore seu comportamento em reuniões e conversas com a chefia e a equipe Fale, mas também ouça.

 

• Peça sugestões à equipe e cobre opiniões sobre suas decisões.

 

• Evite julgar as pessoas e se concentrar nos defeitos. Busque também os aspectos positivos.

 

• Exercite a humildade. Admitir seus deslizes e pedir desculpas é um grande passo.

 

• Interaja. Se for o chefe, evite salas separadas do restante da equipe. Circule e puxe assunto.

 

• Peça ajuda. Não é fácil corrigir o comportamento sozinho. Há programas de coaching em algumas empresas.

 

Fonte: VOCÊ S/A – Fevereiro de 2007 – Pág. 48 a 50.