"Parem de procurar um herói" PDF Imprimir E-mail
Qua, 05 de Fevereiro de 2014 13:40

O influente consultor indiano viaja pelo mundo há 30 anos para dar conselhos a grandes empresas. Sua maior lição: não devemos nos inspirar num único líder

 

Recentemente, numa longa reportagem sobre Ram Charan, a revista Fortune o chamou de o consultor vivo mais influente do mundo. Não foi por acaso. Charan atende algumas das maiores empresas do planeta e mantém uma relação pessoal com altos executivos internacionais, como Jack Welch, ex-presidente da General Electric (GE), considerado um dos maiores executivos do século XX, e John Reed, ex-presidente do Citicorp. Seus conselhos custam cerca de US$ 20 mil por dia.

 

Sua especialidade é ajudar as empresas a alcançar resultados excepcionais. Com base em 30 anos de experiência na área, Charan afirma que um dos principais problemas das empresas é tentar copiar um único modelo de liderança. "Parem de procurar um herói", diz. "É preciso aprender com muitos líderes."

 

O trabalho é a vida de Charan. Não é figura de linguagem. Aos 67 anos, ele nunca se casou e não tem filhos. Muitas vezes, dorme às 2 horas e desperta às 5. Embora tenha comprado há pouco tempo um apartamento em Dálias, nos Estados Unidos, ainda não se instalou lá. Mora em hotéis pelo mundo afora. "Professor Charan, seja bem-vindo ao lar", costuma dizer o porteiro do hotel Waldorf Astoria, de Nova York, onde se hospeda quando chega do aeroporto. Mas o ritmo frenético de trabalho não parece incomodá-lo. "Sou um homem de sorte", afirma. "Posso fazer o que eu adoro fazer!"

 

Época - O senhor costuma dizer que a maioria dos líderes, não sabe administrar uma empresa. Por quê?

 

Ram Charan - A razão é que, na maior parte das empresas, os líderes chegaram ao topo graças a suas especializações nas funções que exerciam antes. Durante a ascensão profissional, a maioria não teve a oportunidade de tocar um negócio. Não aprende a administrar até estar em estágio bem avançado da carreira.

 

Época - O que é mais importante para um líder ser bem-sucedido hoje?

 

Charan - Antes de qualquer outra coisa, um líder deve conhecer bem seus pontos fortes e encontrar as oportunidades certas para aproveitá-los. Nenhum líder será bem-sucedido em todas as situações. Todos os líderes alcançam o sucesso em algumas situações e em outras não. Alguns são bons em fazer reviravoltas em seus negócios; outros, não.

 

Época - O que é preciso fazer para ter sucesso no mundo dos negócios?

 

Charan - Os líderes bem-sucedidos se responsabilizam e são obstinados pela obtenção de resultados. Além disso, sabem contratar as pessoas certas e descobrir qual é o caminho certo para levar a empresa em direção ao futuro.

Época - Qual é o maior erro que um líder pode cometer?

 

Charan - Há dois grandes erros. Um é colocar a pessoa errada numa função crítica. O outro é não acompanhar as mudanças que estão acontecendo fora da empresa: novos concorrentes, novas tecnologias, novas necessidades dos consumidores.

 

Época - Em suas conversas com presidentes de grandes empresas pelo mundo, qual é o maior problema que o senhor encontra?

 

Charan - O maior desafio que os presidentes das empresas têm é encontrar oportunidades para crescer. É com base nas perspectivas de crescimento da empresa que se estabelece seu valor de mercado.

 

Época - Qual é a maior virtude que o senhor observa nos altos executivos internacionais?

 

Charan - Integridade, honestidade.

 

Época - Isso são traços comuns aos grandes executivos?

 

Charan - A maioria dos presidentes de empresas e de conselhos de administração tem integridade, caráter e honestidade.

 

Época - Durante os 30 anos em que o senhor trabalha como consultor, viajando pelo mundo, qual é o país que mais o surpreende a cada vez que o visita?

 

Charan - Eu não sei se posso responder a essa pergunta. Vamos para a próxima.

 

Época - Qual executivo ou empresa poderia ser considerado um exemplo inspirador para líderes do mundo inteiro?

 

Charan - É difícil responder a essa pergunta. Há muitos líderes que são muito bem-sucedidos. Eles estão na Dinamarca, na índia, nos Estados Unidos, na América Latina, no Japão. Não siga uma única pessoa. Isso é um erro. Você não deve emular um único líder. As pessoas se enganam.

 

Época - Não há um grande modelo de liderança que podemos seguir?

 

Charan - Esse é o ponto. Há diferentes benchmarks (modelos) para diferentes propósitos. É preciso fazer o benchmark certo para cada tipo de situação. Diga a seus leitores para parar de procurar por um herói. Não é a coisa certa a fazer.

 

Época - Qual é seu filósofo preferido?

 

Charan - Não, não, não. Essa não é a coisa certa a fazer. Minhas preferências não são importantes. Isso é irrelevante. Eu gosto de muitos filósofos, em diferentes situações. Diga aos leitores para parar de procurar um herói. Parem de idolatrar um herói! Assim, ninguém vai aprender nada. É preciso aprender com muitos líderes. Isso é o que lhe digo depois de 30 anos trabalhando como consultor.

 

Época - O que mais o preocupa agora?

 

Charan - No momento, estou trabalhando na questão da sucessão nas empresas. Nos Estados Unidos, isso se tornou algo muito importante. Muitos presidentes estão fracassando por causa das mudanças e não prepararam bons sucessores. Por isso, muitas empresas estão treinando, recrutando e acompanhando novos executivos para dirigi-las.

 

Época - Qual é sua opinião sobre a qualidade da gestão de empresas no Brasil?


Charan - Acredito que o Brasil tem excelentes administradores. Trabalhei com alguns brasileiros muito inteligentes, brilhantes. Sou um grande fã dos executivos brasileiros. Fora do Brasil, também há muitos brasileiros trabalhando, e eles são excelentes.

 

Fonte: REVISTA ÉPOCA – 04 de Junho de 2007 – Pág. 76 a 78.