Timidez tem cura PDF Imprimir E-mail
Qua, 05 de Fevereiro de 2014 13:41

Você odeia ser o centro das atenções? Novos estudos mostram que é possível superar a insegurança e a ansiedade

 

Meu amigo Joe Raffetto, de Borrego Springs, na Califórnia, é sempre o primeiro a ser con­vidado para uma festa. Ri de um jeito tão agradável que faz com que cada pes­soa a seu redor se sinta a mais fascinante da sala. Faz novos amigos entre os tipos mais variados tão rápido que sua rede de amizades já lhe rendeu três casamentos e uma coleção de histórias hilariantes.

 

Joe tem tanto jeito para atrair a atenção numa roda que sempre achei que fosse um talentoso contador de casos por natureza, que nunca ha­via precisado praticar. Fiquei chocada quando descobri que houve uma época em que Joe tinha pavor de falar com es­tranhos e seus contatos so­ciais se resumiam a "silêncios constrangedores". Ele achava que nunca ia superar aquilo.

 

Ao acreditar que meu ami­go era um poço de charme, cometi um erro comum, diz Bernardo Carducci, diretor do Instituto de Pesquisa sobre a Timidez da Indiana Southeast University, nos Estados Unidos. "Achamos que pessoas seguras nasceram assim. Isso nos põe em desvantagem, por­que pensamos que nunca conseguiríamos ser como elas." Fazemos comparações com a pessoa mais simpática da sala ou com as que aparecem na TV. Quando vemos uma celebridade como George Clooney falar em programas de TV - elegante e engraçado, seduzindo os espectadores -, temos a sensação de que somos inconve­nientes. Esquecemos que ele já fez aquilo centenas de vezes e tem um exército de assessores para prepará-lo.

 

A verdade é que a maior parte das pes­soas seguras aprende deliberadamente algumas técnicas específicas, coisas como usar a linguagem do corpo, dispor-se a conversar com gente nova e concentrar-se no assunto em vez de se preocupar com o que os outros estão pensando. Joe Raffetto começou a ser mais extrovertido depois de se oferecer para dar palestras sobre golfinhos em escolas. Quando começamos a fazer compara­ções sociais realistas, percebemos que um bom desem­penho social não é uma coisa automática, mesmo para os mais talentosos. "Adquirir se­gurança é como aprender a usar um taco de golfe. O prin­cipal é saber o que é impor­tante aprender e praticar", diz Carducci. "Até Tiger Woods treina muitas horas por dia." Nosso corpo é uma má­quina bem calibrada, mas os sinais que ele nos envia estão em sintonia com a Idade da Pedra. "No passa­do, quando os seres humanos se reuniam para caçar, não tínhamos sociedades em que alguém podia ficar mudando de gru­po", diz Jon Maner, professor de Psico­logia Social da Universidade Estadual da Flórida. "Rejeição ou ostracismo provavelmente significavam morte." Assim, evoluímos com uma suscetibilidade muito grande tanto à aceitação quanto à condenação social.

 

A mente humana é um labirinto so­fisticado. Muitas vezes, tentar desviar a ansiedade nos deixa mais constran­gidos. Arriscar-se um pouco, guardar bons exemplos e levar o crédito pelos acertos pode fazer com que qualquer um se torne muito mais seguro, até nas piores situações sociais.

Compreendendo os sinais do corpo

 

A maior parte das pessoas tímidas fi­caria surpresa ao saber que 40% dos jovens de hoje se consideram tímidos. E a taxa sobe 1% ao ano. Os pesquisadores atribuem esse aumento da percepção da timidez à diminuição do contato direto entre as pessoas e à falta de paciência com a demora natural para estabelecer um relacionamento.

 

A timidez também pode ser herda­da. Em um estudo de Jerome Kagan, da Universidade Harvard, aproximadamen­te 20% dos bebês reagiram a estímulos - novos brinquedos, por exemplo - se agitando e choramingando. Muitos de­les viraram crianças mais medrosas que as outras. Quando os pais as expuseram gradualmente a situações novas e inquietantes, o medo desapareceu. Em outras palavras, mesmo bebês que talvez tenham predisposição genética para a timidez po­dem aos poucos aprender a controlá-la.

 

Novos estudos mostram que algumas pessoas tímidas têm um gene que influi no fluxo do hormônio serotonina, tor­nando-as mais reativas ao estresse. Isso pode explicar por que antes de um acon­tecimento importante algumas pessoas, ao entrar em estado de alerta, reagem com ansiedade, enquanto outras mantêm a calma. Tudo isso sugere que a timidez pode ser uma característica da persona­lidade que não se pode mudar. Mas não é bem assim. Mesmo que a timidez tenha um componente genético e as pessoas tímidas jamais consigam eliminar a an­siedade, há estratégias comprovadas que ajudam qualquer um a melhorar.

 

A ansiedade pode variar de um grau leve (recusar convites) ao grave (agorafobia, que pode fazer as pessoas ficar presas em casa). Quase todo mundo fica nervoso em certas situações, como em uma en­trevista de emprego. "O sistema nervoso de qualquer um que esteja vivo dispara quando a pessoa se levanta para se apresentar", observa Ron Hoff no livro I Can See You Naked (Posso Vê-lo Nu).

 

No entanto, manter a calma numa si­tuação de pressão é uma habilidade que pode ser aprendida. Seis estudos compa­raram dois grupos de pessoas em algu­ma situação daquelas de arrepiar, como um discurso improvisado. Um grupo disse que sentia que o corpo estava fora de controle. O outro se dizia calmo. Em cinco dos seis estudos não havia diferenças fisiológicas entre eles. Todos tiveram um aumento parecido nos processos ativados pelo sistema nervoso autônomo, como suor e elevação dos batimentos cardíacos. "Quem é ansioso tende a prestar atenção no corpo e a dar muita importância a essas reações. Tem uma percepção subjetiva de que essas reações são muito maiores do que realmente são", diz James J. Gross, diretor do laboratório de Psicofisiologia da Universidade Stanford, nos EUA.

 

Surpreendentemente, é possível criar uma crise de insegurança por causa de uma reação exagerada ao aumento nor­mal do estado de alerta. Se é possível ficar nervoso apenas por interpretar mal os sinais do corpo, é possível se acalmar in­terpretando-os corretamente. A ironia de entender mal esses sinais do sistema ner­voso é que, em vez de prejudi­car, essa agitação natural pode melhorar o desempenho.

 

Essa ativação não é sinal de fracasso, mas de vontade de acertar. Quando o corpo se prepara an­tes de algum acontecimento, o coração bate com mais força e os músculos tre­mem. Mas a intensidade não se mantém indefinidamente, porque o sistema ner­voso parassimpático logo entra em ação para restaurar o funcionamento normal. Se as reações físicas forem insuportáveis, podemos incentivar o processo de rela­xamento, com técnicas como mover as articulações e respirar fundo.

 

A auto-estima é útil na maré social alta e na baixa

 

Segundo Mark Leary, diretor do De­partamento de Psicologia Social da Universidade de Duke, nossa forma de encarar a auto-estima está na contra­mão há décadas. Em vez de achar que a baixa auto-estima é uma maldição - e tentar desesperadamente inflá-la a níveis estratosféricos para que todos se sintam superbem consigo próprios o tempo in­teiro -, deveríamos perceber que ela pode servir de medida para apontar como es­tamos nos saindo em nossos contatos so­ciais. "A auto-estima sobe e desce, agindo como um barômetro interno para medir como as coisas estão. Ela avisa quando é preciso resolver um problema e nos ajuda a perceber que não é preciso nos preocupar com outros", diz Leary.

 

Esse barômetro pode ficar descontrolado se a auto-estima tiver sido prejudicada no iní­cio da vida por situações como pais exces­sivamente críticos, provocações na escola ou abuso. Essas pessoas precisam tentar se livrar da crença constante de que estão fracassando, de preferência com a ajuda da terapia cognitiva comportamental, que mostrou ser eficiente no tratamento de dis­túrbios de ansiedade. Mesmo assim, para a maioria, as flutuações da auto-estima for­necem informações úteis para se orientar quando a maré social sobe ou desce.

 

Se estamos falando e alguém boceja, a auto-estima cai, avisando que é preciso mudar de assunto. Quando contamos uma piada e as pessoas dão risada, a auto-estima sobe como um foguete. Se não nos sentís­semos mal quando somos chatos e bem quando agradamos, não teríamos motiva­ção para mudar de rumo. Para dominar as habilidades sociais, é preciso sintonizar a auto-estima. Em vez de ficar envergonha­do e se fixar na ansiedade, é melhor fazer um esforço para criar situações positivas, que façam as pessoas ao redor ficar inte­ressadas e se sentir felizes. Prestar menos atenção a si mesmo e mais atenção aos outros vai trazer recompensas, como o aumento das oportunidades sociais.

 

Analise o que você mais teme

 

Quem é tímido tende a falar apenas quando o assunto é importante ou quan­do é necessário. Para começar a criar la­ços mais fortes com outras pessoas, faça uma mudança de cada vez, sugere o pes­quisador Carducci. Se alguém começa a fazer trabalho voluntário, primeiro vai mudar para um ambiente novo. "Uma vez lá, tudo o que esperam de você é seu tempo. Você vai encontrar as mesmas pessoas várias vezes. Elas vão se acostu­mar com você, e você com elas", diz. No fim, é possível convidar alguém para fa­zer alguma coisa em um lugar diferente, como sair para tomar um café.

 

As ansiedades pessoais podem servir para traçar um mapa das áreas que precisam de mudanças. Conan O'Brien, um sucesso in­contestável nos EUA, disse ter descoberto que queria ser humorista e fazer shows ao vivo porque era a coisa que tinha mais medo de fazer. Quando apareceu pela primeira vez comandando o programa Late Night, da NBC, em 1993, os índices de audiência foram baixíssimos e as críticas pio­res ainda. O crítico de TV do Washington Post Tom Shales escreveu que O'Brien era um "aglomerado vivo de tiques nervosos irritantes" e implorou que "desaparecesse da televi­são". Ele insistiu e, anos depois, os críticos morderam a língua. O próprio Shales escreveu que O'Brian era "um dos maiores exemplos de autotransformação da história da TV".

 

Esse é um testemunho tão marcante do poder da prática que a história sempre volta à tona, apesar de o próprio O'Brien querer esquecer aquela fase. "O que quer que eu faça, as pessoas ficam lembrando aqueles tempos difíceis do começo", disse à emissora National Public Radio. "Se um meteoro gigante estivesse vindo em direção à Terra e eu construísse rapida­mente um foguete para desviar o meteo­ro e salvasse o planeta da destruição, a manchete seria: O'Brien salva o mundo depois de um começo difícil."

 

Algumas pessoas têm coragem suficien­te para tentar uma "implosão": enfrentar um desafio tão intimidante que depois dele nunca mais vão perder o rebolado. O lendário psicólogo Albert Ellis foi o pio­neiro do "ataque frontal". Em 1933, aos 19 anos, resolveu abordar todas as mu­lheres que se sentassem sozinhas em um banco do Jardim Botânico de Nova York. "Trinta foram embora imediatamente", contou ao New York Times. "Falei com outras cem pela primeira vez na minha vida, sem me importar com a ansieda­de. Ninguém vomitou e saiu correndo. Ninguém chamou a polícia." Ellis aprendeu que rejeição não mata. Das primei­ras 130 mulheres com quem foi falar, conseguiu convidar apenas uma para sair. "Mas na segunda centena peguei o jeito e consegui marcar alguns encontros", disse.

 

A superestrela das comédias Will Ferrell, que se achava ter­rivelmente tímido, forçou-se a fazer maluquices em público. "Na faculda­de, carregava um retroprojetor pelo campus com as calças caindo de um jeito que dava para ver minha b...", disse Ferrell à revista People. "Foi assim que superei a ti­midez." A diferença entre O'Brien e Ferrell e pessoas que não conseguem deixar de ser inibidas pode ser apenas uma. Em vez de ficar achando que eram prisioneiros da ansiedade, tiveram a brilhante ideia de não acreditar nisso e descobriram como se desafiar e se transformar. A lição? Até as piores situações têm um lado bom.

 

Se estiver interessado em alguém, demonstre

 

Não é preciso ter medo da pessoa por quem se sente atraído

Crie um alter ego

 

Assuma uma identidade diferente, mais ousada que a sua. Assim pode ser mais insinuante. Se estiver com um espírito brincalhão, não vai se preocupar em ser rejeitado ou não.

 

Seja agradável

 

Todo mundo prefere ouvir "você está certo", em vez de "você está errado". Fazer isso não só valoriza a inteligência e os valores da outra pessoa como mostra que você gosta dela.

 

Canalize seu charme infantil

 

Os bebês, quando ainda não podem pedir ou convencer alguém a fazer alguma coisa, usam sorrisos inocentes e olhares expressivos para conquistar amor e atenção. Adote os mesmos recursos.

 

Não tenha medo do "não"

 

Ao demonstrar interesse, podemos, às vezes, ser rejeitados. Pense um pouco para ver se deu um passo em falso. Se perceber que não vale a pena insistir na conquista, parta para outra.

 

Seja mais respeitado no trabalho

 

Para ser persuasivo, mostre como suas ideias vão ser boas para todos.

 

O que você está tentando evitar?

 

• É preciso enfrentar alguém no trabalho para resolver um assunto de seu interesse, mas isso causa ansiedade. Pense nas desvantagens de esperar e compare às vantagens de resolver tudo logo.

 

Pare de enrolar

 

• Você pretendia defender suas ideias, mas mudou de ideia no meio do caminho. Se isso acontecer, anote a razão. Quando perceber que está escrevendo sempre a mesma desculpa esfarrapada, vai ficar com vergonha e agir.

 

Encolha seu chefe

 

• Ao se sentir intimidado, imagine que seu corpo está crescendo até sua cabeça bater no teto. Seu chefe vai parecer uma criança pedindo um abraço. Imagine que está sorrindo para ela. A situação pode acabar bem.

 

Estabeleça metas

 

• Antes de uma entrevista de emprego, liste fatores que causam ansiedade.

Enfrente os que podem ser controlados. Métodos como apresentações simuladas ajudam. O medo costuma ir embora.

 

Falar em público não é o fim do mundo

 

Como vencer a ansiedade e a timidez que impedem você de se expressar.

 

Antecipe o medo

 

O nervosismo depende da importância do evento e do nível de certeza de que vamos nos sair bem. Avalie esses fatores para não ser pego de surpresa no grande dia.

 

Faça um ensaio

 

Vista a roupa que pretende usar no dia da apresentação. Peça para alguém iluminar seus olhos enquanto fala. Aprenda a gostar da descarga de adrenalina.

 

Faça rir

 

Quando der informações importantes, faça uma pausa. Conte uma anedota para aliviar o clima. O humor bem colocado melhora a impressão que a plateia tem de você.

 

Pense grande

 

O público percebe quando você não quer se arriscar. Busque ideias interessantes e provocativas e certifique-se de que seu público saiba que você tem um papel importante.

 

Fonte: REVISTA ÉPOCA – 04 de Junho de 2007 – Pág. 62 a 66.