Riqueza da língua PDF Imprimir E-mail
Ter, 15 de Março de 2016 22:19

RIQUEZA DA LÍNGUA


Ferramenta fundamental na carreira e no crescimento pessoal, o português pode ser transformado por um acordo ortográfico. Mas essa não é a única revolução por que a língua está passando

 

Ascensão pelo vocabulário

 

O bom uso da língua influi na carreira. Um estudo feito em 39 empresas americanas mostrou que a chance de ascensão profissional está diretamente ligada ao vocabulário que a pessoa domina. Quanto maior seu repertório, mais competência e segurança ela terá para absorver novas ideias e falar em público.

 

Engavetado desde sua assinatu­ra, em 1990, voltou a assombrar o acordo ortográfico que visa a unificar a escrita do português nos países que o adotam como língua oficial. O Ministério da Educação chegou a anunciar a entrada em vigor da reforma no Brasil já em 2008. Feliz­mente, essa data foi postergada. Por mais modorrenta que seja, essa dis­cussão não deve se extinguir. Ela tem implicações profundas de ordem técnica e comercial, além de pro­vocar ainda mais ansiedade nos milhões de brasileiros mergulha­dos em dúvidas no seu empe­nho diário para falar e escrever bem. Dominar a norma cul­ta de um idioma é platafor­ma mínima de sucesso pa­ra profissionais de todas as áreas. Engenheiros, médicos, economistas, contabilistas e admi­nistradores que fa­lam e escrevem cer­to, com lógica e ri­queza vocabular, têm mais chance de chegar ao to­po do que pro­fissionais tão qualificados quanto eles mas sem o mesmo domínio da palavra. Por essa ra­zão, as mudanças ortográficas interessam e trazem dúvidas a todos. O acordo diz como se devem usar o hífen e o acento agu­do e outros desses minúsculos sinais grá­ficos que já fizeram estatelar muitas repu­tações. A diferença entre um sucesso e um vexame pode ser determinada por uma simples crase mal utilizada. Portan­to, não há como ignorar quando os sábios se reúnem para determinar o que é certo e errado no uso do português.

 

Nas grandes corporações, os testes de admissão concedem à competência linguística dos candidatos, muitas vezes, o mesmo peso dado à aptidão pa­ra trabalhar em grupo ou ao conhecimento de mate­mática. Diversas pesquisas estabelecem correlações entre tamanho de vocabulário e habi­lidade de comunicação, de um la­do, e ascensão profissional e ganhos salariais, de outro. Salte-se agora do micro para o macro. Uma decisão apa­rentemente arcana sobre o uso correto do trema, por exemplo, pode ganhar con­tornos bem mais amplos em um momen­to em que os idiomas nacionais sofrem todo tipo de pressão desestabilizadora. Como diz o lingüista britânico David Crystal, a globalização e a revolução tecnológica da internet estão dando origem a um "novo mundo linguístico". Entre os fe­nômenos desse novo mundo estão as subversões da ortografia presentes nos blogs e nas trocas de e-mails e o aumen­to no ritmo da extinção de idiomas. Es­tima-se que um deles desapareça a ca­da duas semanas. Cresce a consciência de que as línguas bem faladas, protegi­das por normas cultas, são ferramentas da cultura e também armas da política, além de ser riquezas econômicas.

A reforma do português ora em cur­so vai se defrontar com um desafio iné­dito. Outras mudanças foram feitas em situações em que era bem menos inten­so o ritmo de entrada de palavras e con­ceitos na corrente da vida cotidiana. Em tempos de internet, as línguas, por natu­reza refratárias a arranjos de gabinete e legislações impostas de cima para bai­xo, podem se comportar como potros indomáveis. Quem vai ligar para as novas regras de uso do hífen quando mantém longas e satisfatórias conversações na in­ternet usando apenas interjeições e símbolos gráficos como os consagrados "emoticons" para alegre :-) ou triste:-(?.

 

David Crystal cunhou o termo nelspeak para designar as formas inédi­tas de expressão escrita que a internet ge­rou. A inclusão de símbolos audiovisuais, os links que permitem "saltos" de um tex­to para o outro — nada disso existia nas formas anteriores de comunicação. A co­municação por escrito se tomou mais ágil e veloz, aproximando-se, nesse sentido, da fala. "A necessidade de diminuir o tem­po de escrita e se aproximar do tempo da fala levou os usuá­rios a ser cada vez mais objetivos e compactos", diz o lingüista Antônio Carlos dos Santos Xavier, da Uni­versidade Federal de Per­nambuco (UFPE). Essa tendência é mais notória nas con­versas que os adolescentes mantêm através de progra­mas como o MSN, com abreviações como blz (beleza) e frases de sonori­dade tribal como bora nu cinema — pod c as 8? (vamos ao cinema — pode ser às 8?). Mas o netspeak não é só para os imberbes. Até no âmbito profissional a objetividade eletrônica está imperando. A carta comercial que iniciava com a fór­mula "vimos por meio desta" é peça de museu. "Gêneros como a carta circular ou o requerimento estão em extinção. O e-mail absorveu essas funções", observa a lingüista Cilda Palma, que, em sua dissertação de mestrado na UFPE, estudou a comunicação interna de uma empresa pú­blica — um posto regional dos Correios — e de uma empresa então recentemen­te privatizada, a Petroflex. Ela constatou que a correspondência eletrônica tornou a comunicação mais informal — e que es­sa tendência foi mais longe na empresa privada. Observa a pesquisadora: "Os Cor­reios ainda mantêm uma infra-estrutura anacrônica, que exige fotocópias e carim­bos nos comunicados internos".

 

Embora a língua sofra ataques deformadores diários nos blogs e chats, a palavra escrita nunca foi usada tão intensa­mente antes. Os mais otimistas apostam que os bate-papos da garota­da travados com símbolos e interjeições hoje podem ser a semente de uma co­municação escrita mais complexa, assim como o balbuciar dos bebês de­nota a prontidão para a fala lógica que se seguirá. Pode ser. Seria ótimo que fosse as­sim. Por enquanto, uma maneira de se destacar na carreira e na vida é mostrar nas co­municações for­mais perfeito domí­nio da tradicional norma culta do português. Vários estudos demonstram a correlação positiva entre um bom domínio do vocabulário e o nível de renda, mesmo que não se pos­sa traçar uma correlação direta e linear entre uma coisa e outra. Além de conhe­cer as palavras, é preciso que se tenha al­guma coisa a dizer de forma lógica e ra­cional. O vocabulário, por si só, não ga­rante precisão ou beleza na escrita. "Ma­chado de Assis compôs toda a sua obra com aproximadamente 12.000 vocábu­los, enquanto Coelho Neto, autor ilegí­vel, teria empregado mais de 35.000 pa­lavras diferentes na sua longa e obscura carreira", lembra o professor de portu­guês Cláudio Moreno. Mesmo que pare­ça meio quadrado na mesa do bar, quem mais se distanciar do linguajar trivial dos chats nas comunicações formais mais se­rá notado pela competência.

 

É empobrecedor, porém, ignorar a re­volução cultural da internet. Como toda inovação tecnológica abrangente, a civili­zação digital ampliou o léxico de muitos idiomas, entre eles o português. E o fez, ba­sicamente, pela incorporação de palavras em inglês (site, download, hardware). Es­sas adições causam horror aos puristas da linguagem. Bobagem. A maior fonte de enriquecimento dos idiomas em todos os tempos é a incorporação de vocábulos oriundos de línguas estrangeiras e de revo­luções tecnológicas. O português cresceu muito enquanto seus navegadores explora­vam os "mares nunca dantes navegados" cantados por Luís de Camões. "Calcula-se que o português medieval tinha perto de 15.000 vocábulos. Em meados do século XVI, com a expansão marítima, o total chegaria a 30.000, 40.000", observa o filólogo Mauro Villar, do Dicionário Houaiss. Nesse processo, é preciso levar em conta também a popularização do vo­cabulário especializado, que em geral não entra nos dicionários. Por mais abrangen­te que seja um dicionário, ele recolhe ape­nas algumas centenas de milhares de pa­lavras. O Houaiss tem perto de 230.000 verbetes. O Oxford English Dictionary, o famoso OED, registra 615.000. Ambos são recortes muito limitados de um universo em permanente expansão. Só as palavras necessárias à prática da medicina estariam na casa de 600.000. Eventualmente, uma grande virada em um desses campos científicos puxa o vocabulário especializado mais para perto do chão dos dicionários. DNA é um exemplo eloquente: o acrôni­mo em inglês de ácido desoxirribonucléico (componente fundamental do código genético) saiu dos laboratórios e se incor­porou ao dia-a-dia.

 

A internet é, além de tudo, um cam­po essencial na disputa pelo mercado dos idiomas. O estudo da economia da lín­gua é um campo promissor. A Fundação Telefónica, da Espanha, está promoven­do um projeto de pesquisa que deve du­rar quatro anos e pretende aferir o peso econômico do idioma espanhol no mun­do. "O valor de uma língua se relaciona com sua capacidade de incentivar os in­tercâmbios econômicos", explica o eco­nomista José Luís Garcia Delgado, coor­denador do projeto. Embora não seja pos­sível atribuir uma cifra monetária a uma língua, faz pleno sentido falar no valor relativo que ela tem na comparação com outras línguas. O número total de falan­tes nativos é um fator essencial. O espa­nhol tem cerca de 450 milhões, patamar semelhante ao do inglês (o português fi­ca em torno de 250 milhões). O inglês, porém, domina a internet: de acordo com o Internet World Stats, site que concentra números mundiais sobre a rede, 30% dos usuários da rede são falantes nativos do idioma de Shakespeare, contra 9% de usuários da língua de Cervantes. Mais importante, o inglês é forte como segun­da língua. O British Council estima que pelo menos 1 bilhão de pessoas estão es­tudando inglês hoje no mundo.

 

"O inglês está destinado a ser uma lín­gua mundial em sentido mais amplo do que o latim foi na era passada e o francês é na presente", dizia o presidente ameri­cano John Adams no século XVIII. A pro­fecia se cumpriu: o inglês é hoje a língua franca da globalização. No extremo opos­to da economia linguística mundial, estão as línguas de pequenas comunidades declinantes. Calcula-se que hoje se falem de 6.000 a 7.000 línguas no mundo todo. Quase metade delas deve desaparecer nos próximos 100 anos. A última edição do Ethnologue — o mais abrangente estudo sobre as línguas mundiais —, de 2005, listava 516 línguas em risco de extinção. O português está entre os vencedores da globalização. É uma língua que vem crescendo na internet: nos últimos sete anos, o número de falantes da língua por­tuguesa que navegam na rede aumentou em 525% (embora ainda represente ape­nas 4% dos usuários). O acordo ortográ­fico tem a intenção manifesta de incre­mentar o "valor de mercado" do portu­guês. Desde o início criticada dos dois la­dos do Atlântico, a unificação da língua portuguesa foi uma causa cara ao filólo­go brasileiro Antônio Houaiss, morto em 1999, O acordo foi firmado em 1990 pe­la Comunidade dos Países de Língua Por­tuguesa (CPLP), então com sete membros — Brasil, Portugal, Angola, Moçambi­que, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São To­mé e Príncipe. Mais tarde, o Timor Leste também faria sua adesão. Os prazos de implantação das novas regras estipulados em 1990 nunca foram cumpridos, e a ra­tificação do acordo foi adiada sucessiva­mente. Um novo acerto firmado em uma conferência de chefes de estado da CPLP em 2004 determinou que bastaria a ratifi­cação de três membros para que o acordo entrasse em vigor, o que aconteceu no fim do ano passado. O problema  é que só os três paí­ses que ratificaram — Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe — deram mostras de querer levar a reforma adiante. Naturalmente, nenhuma unificação ortográfica merece ser chamada assim se a matriz da língua, Portugal, não a seguir. Autoridades portuguesas têm falado em esticar os prazos de adaptação às novas regras em até dez anos.

 

VEJA ouviu quatro profissionais da língua portuguesa. O único que conside­ra a unificação importante do ponto de vista da política da língua é o gramático Evanildo Bechara, da Academia Brasilei­ra de Letras. Mas ele faz restrições ao con­teúdo da reforma, que teria perdido a oportunidade de racionalizar algumas re­gras. Os outros três especialistas são mais radicais na crítica. "É um acordo meia-sola", avalia Pasquale Cipro Neto. Ele ci­ta algumas palavras que continuam sendo grafadas de duas formas, conforme a pro­núncia ou as idiossincrasias de cada país — caso de "cómodo" (Portugal) e "cô­modo" (Brasil), ou de berinjela/be­ringela. "Essa ideia messiânica, utópica de que a unificação vai transformar o por­tuguês em uma língua de relações internacionais é uma tolice", diz o professor Cláudio Moreno. Sérgio Nogueira consi­dera que só uma categoria vai ganhar van­tagens com o acordo: os professores que dão aulas e palestras sobre língua portu­guesa. "Se a reforma sair, vou ficar rico de tanta palestra que vou dar”, ironiza. As editoras em geral estariam no lado perdedor do acordo, já que teriam de adequar seus catálogos à nova grafia, O custo mé­dio para a revisão e a preparação de um único livro ficaria em torno de 5.000 reais. A revisão de enciclopédias e dicionários seria ainda mais custosa. "Só a atualização do nosso banco de dados ficaria entre 200.000 e 400.000 reais", calcula Breno Lerner. diretor-geral da Melhoramentos, que publica os dicionários Michaelis.

 

As diferenças culturais não se resol­vem assim apenas com um golpe de pena. Mesmo com a ortografia unificada, dificilmente uma dona-de-casa portugue­sa vai comprar um livro de culinária bra­sileiro que fala em "açougue" ("talho" em Portugal), e o carpinteiro brasileiro com um manual português nas mãos tal­vez fique embasbacado com a palavra "berbequim" (furadeira). De outro lado, a grafia cheia de letras mudas — tecto, facto, acto — não impediu o português José Saramago de ser best-seller no Bra­sil. Como a natureza, a arte e a inteligên­cia sempre encontram uma maneira de semanifestar. Com a ajuda de uma norma culta e amplamente aceita, esse trabalho fica mais fácil.

 

Pecados da língua

 

Dez erros que comprometem a vida social e as pretensões profissionais de qualquer um.

 

1- Houveram problemas.

"Houve" problemas. Haver, no sentido de existir, é sempre impessoal.

 

2- Se ele dispor de tempo.

É erro grave conjugar de forma regular os verbos derivados de ter, vir e pôr. Neste caso, o certo é "dispuser".

 

3- Espero que ele seje feliz e Vieram menas pessoas

Dois erros inadmissíveis. A conjugação "seje" não existe. E "menos" não concorda com o substantivo, pois é advérbio e não adjetivo.

 

4- Ela ficou meia nervosa.

"Meio" nervosa. Os advérbios não têm concordância de gênero.

 

5- Segue anexo duas cópias do contrato.

Atenção para a concordância verbal e nominal: "seguem anexas".  

 

6- Esse assunto é entre eu e ela.

Depois de preposição, pronome oblíquo tônico: entre "mim" e ela.

 

7- A professora deu um trabalho para mim fazer.

Antes de verbo, usa-se o pronome pessoal, e não o oblíquo: para "eu" fazer.

 

8- Fazem dois meses que ele não aparece.

O verbo fazer indicando tempo é impessoal: "faz" dois meses.

 

9- Vou estar providenciando o seu pagamento.

O chamado "gerundismo" não chega a ser erro gramatical, mas é um vício insuportável. "Vou providenciar" é mais elegante.

 

10- O problema vai ser resolvido a nível de empresa.

O febrão do "a nível de" parece ter passado, mas ainda há quem utilize essa expressão pavorosa. Na frase em questão, "na" ou "pela" empresa são mais exatos e elegantes.

 

Conversa digital

 

Como a internet mudou a ortografia...

 

"Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo principio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no intróito, mas no cabo: diferença radical entre este livro e o Pentateuco."

 

"algl tempo hesitei c devia abrir estas memórias peto principio ou pelo flm, isto
eh, se poria em 1° lugar o meu nascimto ou a minha morte. suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimto, 2 considerações me levaram a adotar ≠ método: a 1ª eh q ñ sou propiamte 1 autor defunto, + 1 defunto autor, p/ qm a kmpa foi outro berço; a 2ª eh q o escrito ficaria assim + galante e + novo. moises, q tb contou a sua morte, ñ a pôs no intróito, + no kbo: ≠ radical entre este livro e o pentateuco.        

 

(O primeiro parágrafo de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, no original e traduzido para o ''internetês")

 

...E a nova maneira de usar a língua

 

Informalidade

 

A rapidez da comunicação eletrônica aposentou formalidades como "prezado senhor" ou "atenciosamente". Os e-mails tendem a ser curtos e objetivos. Nos programas de conversação on-line como o MSN, a escrita é ainda mais informal e se aproxima da fala.

 

Recursos visuais

 

O texto incorpora figuras e sinais gráficos – os mais conhecidos são os chamados emoticons. Mas esse é um recurso informal demais - não é de bom-tom utilizá-lo, por exemplo, em e-mails profissionais.

 

Simultaneidade

 

Programas de comunicação instantânea como o MSN permitem conversas com a participação de dezenas de pessoas ao mesmo tempo, de forma ordenada - o que seria difícil num bate-papo ao vivo.

 

O que não mudou

 

Até o momento, a comunicação digital não afetou a essência da língua. A linguagem que os jovens utilizam na internet mexe com a ortografia, mas a gramática se preserva.

 

Uma revolução sem gramática

 

Professor honorário de lingüística da Universidade do País de Gales, em Bangor, Davíd Crystal, de 66 anos, é uma das maiores autoridades mundiais em lingua­gem. Autor de A Revolução da Linguagem (Jorge Zahar), ele falou a VEJA sobre as mudanças que a internet trouxe ao uso da língua e sobre as línguas em extinção.

 

A internet está mudando o caráter das línguas?

 

Em cinquenta ou 100 anos, to­das as línguas que utilizam a internet serão diferentes. Está surgindo o que chamo de netspeak, "fala da rede", ou comunicação mediada pelo computador, em jargão aca­dêmico. Ainda é impossível prever, no en­tanto, quais serão a forma e a extensão dessa mudança. Leva muito tempo para que uma transformação efetiva se manifes­te numa língua. No inglês, por exemplo, no­tamos uma grande diferença entre a lin­guagem de Chaucer e a de Shakespeare. Duzentos anos separam o nascimento de um e de outro. Pergunte às pessoas quan­do foi a primeira vez em que elas manda­ram um e-mail. Foi há dez, talvez cinco anos. É algo recente demais. Existem curio­sos fenômenos de ortografia, o uso de sinais tipográficos e dos chamados emoticons. Mas, se procurarmos por novas palavras ou uma nova gramática na internet, não encontraremos muita coisa. O inglês é uma língua com mais de 1 milhão de pala­vras, e somente umas poucas centenas fo­ram incorporadas a ela por causa da inter­net. Isso não altera o seu caráter.

 

A informalidade é uma característica central do netspeak?

 

Sim, até o momen­to. Isso tudo começou com os nerds da in­ternet, há vinte, trinta anos. E eles eram re­beldes. Viam a rede como uma revolução, uma alternativa democrática às formas de comunicação mais formais. Esses pioneiro não pontuavam, não se preocupavam com ortografia, criavam formas estranhas de grafar as palavras. Quando a internet se espalhou, a informalidade se popularizou também. Nos anos 80 e 90, e-mails se tornaram muito informais. Mas a idade média do usuário de internet vem subindo, e com isso a comunicação está ficando mais formal novamente. Acredito que os estudos sobre netspeak que virão daqui por diante vão documentar um aumento da formalidade.

 

O senhor afirma que, no atual ritmo de extinção, em um século teremos só metade das línguas que são faladas no planeta hoje. Por que tantas línguas estão desaparecendo?

 

O principal motivo é a assimilação cultural por causa da globalização. O crescimento das gran­des línguas do mundo funciona como um trator, esmagando os idiomas que se põem no caminho. Isso não é um fenô­meno restrito a duas ou três línguas. Não é apenas o inglês que ameaça línguas nativas na Austrália, ou o português que põe em perigo idiomas indígenas no nor­te do Brasil. O chinês, o russo, o hindi, o suahili – todas as línguas majoritárias ameaçam idiomas de comunidades pe­quenas. O futuro dessas línguas minoritá­rias está vinculado a políticas regionais.

 

Nos lugares onde elas sobrevivem, há uma série de práticas políticas e econômicas que valorizam a diversidade.

 

O que se perde quando uma língua morre?

 

Quando me fazem essa pergunta, cos­tumo rebater com outra: como seria o mun­do se a sua língua não houvesse existido? O que você teria perdido, o que todos teríamos perdido se não existisse o português? Se não houvesse o inglês, não teríamos Chaucer, Shakespeare, Dickens. Quando colocamos as coisas nesses termos, as pessoas vêem. Uma língua expressa uma visão peculiar do mundo. Não importa se a comunidade que utiliza essa língua vive em uma selva, em um iceberg ou na cidade, sua história, seu ambiente e seu modo de pensar não têm igual. O único meio de comunicarmos a percepção do que é ser humano em determinado ambiente é através da linguagem.

 

No Brasil, já houve tentativas de restringir legalmente o uso de palavras estrangeiras, especialmente do inglês. O inglês pode ser considerado em alguma medida uma ameaça ao português?

 

Não, de forma alguma. Esses movi­mentos puristas aparecem no mundo to­do. E o fato básico é que todas as línguas tomam empréstimos das outras. Ao longo dos últimos 1.000 anos, o inglês in­corporou palavras de mais de 350 línguas. Só 20% das palavras do inglês atual remontam às origens anglo-saxônicas e germânicas da língua. Essa incorporação de palavras tornou o inglês uma língua ex­pressiva e rica. Shakespeare não poderia escrever o que escreveu se não contasse com um vocabulário que era germânico, francês e latino. Palavras se incorporam a uma língua não para destruí-la, mas para permitir novas oportunidades de expres­são. Se cada palavra que entra no portu­guês apagasse uma palavra anterior, isso seria de fato um fenômeno estranho e in­desejável. Mas não é assim que funciona.

 

A nova palavra não substitui palavras pree­xistentes, ela passa a vigorar ao lado delas. A língua evolui desse modo e alcança uma gama expressiva mais ampla.

 

Como lidar com a questão do vocabulário importado ao educar as crianças?

 

Os jovens gostam de usar palavras estrangeiras, pois em geral elas soam inovadoras. Gostam também de empregar gírias que eles pró­prios criam. Não se pode proibir jamais crianças e adolescentes de utilizar suas for­mas particulares de linguagem. É como dizer a eles: "Valorizem a linguagem – mas não a sua própria". É muito importante que, nas escolas, os estudantes aprendam toda a gama de possibilidades da língua. Eles preci­sam descobrir que há palavras tradicionais e palavras novas para as mesmas coisas. E devem saber também a diferença estilís­tica entre essas opções.

 

Por que o inglês é a língua mais visada pelos puristas?

 

Pela razão simples de que é a língua mais globalizada. É sobre­ tudo uma questão política, que varia de região para região. Quem fala quíchua, no Peru, não está preocupado com o inglês, mas com vocábulos que remetem à histó­ria do domínio espanhol sobre os povos indígenas. A política está sempre por perto nessas questões.   

 

O que muda com a entrada em vigor do acordo ortográfico que pretende unificar a escrita da língua portuguesa no mundo.

 

Mudanças na escrita brasileira

 

Lingüiça                 linguiça

 

O trema deixa de existir. Não há mais acento sobre o u de palavras como tranquilidade, linguiça, quiproquó.                     

 

Heróico                   heroico 

 

Os ditongos ei e oi em sílada tônica de palavra paroxítona deixam de ser acentuados. E o caso de heróico, paranóico, ideia, assembléia.

 

Vêem                       veem

 

Cai o circunflexo que assinalava a tônica fechada de certas formas verbais paroxítonas nas quais há duas letras e, como crêem, lêem, vêem.

 

Vôo                           voo

 

Também desaparece o circunflexo de paroxítonas com oo no final, como voo e enjôo.

 

Feiúra                       feiura

 

As paroxítonas com u e i tônicos precedidos de ditongo deixam de ser acentuadas. É o caso de feiura, boiuno e cheiíssimo.

 

Vários acentos diferenciais deixam de existir. A maioria já não tinha muito sentido, como o acento em polo, para diferenciar o substantivo da contração antiga por + Io. O mais importante é na palavra para - a preposição e a flexão do verbo parar passam a ser grafadas da mesma forma, sem acento.

 

Mudanças na escrita portuguesa e africana

 

Cai o h inicial de palavras como erva e úmido.

 

Desaparecem as consoantes mudas c e p. Assim, tecto, acção, eléctrico, baptismo, óptimo passam a ser grafados à moda brasileira: teto, ação, elétrico, batismo, ótimo.

 

Hífen

Deixa de ser usado nos casos em que a raiz da palavra começa em r ou s.

A letra será então duplicada, como em extrarregular e antissemitismo – a não ser que os prefixos terminem em r, como híper-radical, inter-regional e super-rato.

 

O que não será unificado

 

Certas palavras em que a vogal tônica pode ser aberta ou fechada, dependendo do país, continuam a levar acento circunflexo no Brasil e agudo em Portugal.

 

BRASIL

 

Antônio

 

Tônica

 

Cômodo

 

PORTUGAL

 

António

 

Tónica

 

Cómodo

 

Fonte: REVISTA VEJA – 12 de Setembro de 2010 – Pág. 88 a 96.