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O que a emocionante disputa entre Roald Amundsen e Robert Scott pela conquista do Pólo sul tem a ensinar ao mundo dos negócios



O relógio marcava 15 horas do dia 15 de dezembro de 1911. “Alto!”, gritaram em coro os condutores dos trenós, puxados por cães esbaforidos. O explorador Roald Amundsen parou. Após enfrentar quase um ano de nevascas, temperaturas de até 60 graus negativos, terrenos desconhecidos e uma distância de 2240 quilômetros, Amundsen e outros quatro exploradores noruegueses fincaram sua bandeira naquele que era considerado o último lugar da Terra a ser pisado pelo homem. Eles haviam chegado ao Pólo Sul. Haviam, também, protagonizado uma das maiores conquistas geográficas da história, embora não se dessem conta disso naquela ocasião. (A próxima grande conquista seria a da Lua, quase seis décadas depois.) A sensação de Amundsen no momento da chegada foi uma espécie de vazio pós-dever cumprido. Sua meta, milimetricamente planejada durante dois anos, havia sido parcialmente alcançada. Ele ganhara a primeira parte de uma corrida.



O perdedor estava 580 quilômetros atrás. O oficial da Marinha britânica Robert Falcon Scott e sua equipe só chegariam ao Pólo Sul 34 dias depois. Ao deixar a Inglaterra, 20 meses antes, Scott possuía mais homens, tecnologia supostamente mais avançada, mais dinheiro e mais apoio oficial do que Amundsen havia conseguido na então recém-criada nação norueguesa. Ao contrário de Amundsen, Scott e seus quatro companheiros de jornada jamais retornariam. Famintos, atacados pelo escorbuto, exaustos após arrastar por meses seus trenós, com as pernas e os braços gangrenados, deprimidos pela derrota, eles morreram no caminho de volta. Seus corpos congelados foram encontrados por integrantes da missão inglesa, no final de 1912.



A história da disputa entre Amundsen e Scott, contada no livro O Último Lugar da Terra, do jornalista inglês Roland Huntford, é um exemplo acabado do que é – e, sobretudo, do que não é – ser um líder. É também uma aula sobre as virtudes do planejamento, da estratégia e do trabalho em equipe. Ambas as jornadas são inspiradoras e podem servir como uma alegoria do sucesso e do fracasso que rondam as organizações e seus líderes. Não é preciso fazer comparações entre a vida nos limites do Pólo Sul e a realidade dos negócios. Elas são evidentes demais.



Amundsen ganhou a parada, sobreviveu e manteve seus companheiros vivos porque tinha o verdadeiro espírito do líder. Sabia que só triunfaria se estivesse cercado das melhores pessoas (às vezes, melhores do que ele próprio), se mantivesse a disciplina, o foco e o bom senso em situações críticas, se aprendesse com quem sabia mais, se não teimasse em lutar contra a natureza e a transformasse numa poderosa aliada. A vitória de Amundsen também se deve ao fato de que via a conquista do Pólo Sul como uma simples meta a ser cumprida, e não como uma espécie de drama shakesperiano.



Scott era o oposto em todos os sentidos. Acima de tudo, ele queria ser o herói de um reino em decadência, a Inglaterra pós-vitoriana. Tinha uma incrível habilidade de jogar para a platéia. Fazia, por assim dizer, um marketing pessoal de primeiríssima linha. Seus diários de viagem, extremamente bem escritos, relatam uma saga de sofrimentos e privações. Durante todo o tempo. Scott culpa o clima, as más condições do terreno, o azar de isso ou aquilo ter ocorrido. Nada era conseqüência de sua inépcia como administrador, estrategista ou líder de equipe. Para Scott, era como se os deuses conspirassem contra seus objetivos. E, no fundo, isso tornava sua história ainda melhor.



Em sua última mensagem deixada para o povo inglês, Scott dizia: “Nossa ruína deve-se a este súbito advento do mau tempo (…) Não creio que seres humanos tenham alguma vez sofrido um mês como o que tivemos (…). Não me arrependo desta jornada, que mostrou que os ingleses podem suportar sofrimentos, ajudar uns aos outros e encontrar a morte com a mesma coragem já mostrada no passado.”



A trágica morte fez dele um herói e se transformou na melhor das desculpas para o colapso da expedição. Tivesse voltado vivo à Inglaterra, Scott teria de conviver com a sombra do fracasso. O orgulho inglês, por sua vez, ocultou as razões que fazem de seu sacrifício não um ato de coragem, mas uma manifestação de incompetência. O mito estava criado.

O espírito de Amundsen, o vencedor



Pequenos traços de personalidade fizeram de Roald Amundsen um grande líder. Talvez o mais importante deles seja sua mente curiosa, objetiva e simples, aberta às novidades e às lições que as experiências lhe apresentavam. Médico por formação. Amundsen amava o gelo, as montanhas e os esquis. Com pouco mais de 20 anos, foi iniciado na exploração polar. Para aprender como navegar em regiões glaciais, empregou-se como marinheiro em um navio de caça às focas.



Tempos depois se ofereceu para fazer parte da tripulação do Bélgica, um velho navio que partiria para a Antártida, abrindo mão do salário. No Bélgica, Amundsen aprendeu muito a respeito dos efeitos da solidão polar sobre os homens. Durante todo o inverno de 1898, a tripulação não viu a luz do dia. A escuridão parecia eterna. Dois homens enlouqueceram. O planejamento era precário – e de suas conseqüências Amundsen jamais se esqueceria. Não havia roupas apropriadas nem comida para todos. O frio era quase insuportável. Por falta de vitamina C, a tripulação foi atacada pelo escorbuto. Só a carne fresca de focas e de pingüins salvaria a maior parte da equipe da morte. Amundsen anotava tudo como forma de evitar a repetição de certos erros no futuro.



De volta à Noruega, ele gastou todas as suas economias num veleiro de madeira com quase 30 anos de uso, o GjØa. Com a precária embarcação, partiria para sua nova aventura: chegar ao pólo magnético Norte e transpor a Passagem Noroeste, no Ártico, algo que ninguém ainda havia conseguido fazer. Antes de partir, leu relatos e conversou com alguns dos grandes exploradores da época. Queria sugar experiência. Vasculhou o mercado em busca dos melhores esquis e da melhor comida em conserva. Sua equipe era formada por seis homens com as mais diversas competências – todas necessárias ao cumprimento da meta estabelecida. Amundsen não queria recrutar qualquer trabalhador. Exigia iniciativa. Certa vez ele ordenou a um aspirante que armazenasse peixe seco nos porões do barco. “Não dá para fazer isso. Não há espaço”, disse o aspirante. Com a habitual objetividade, Amundsen respondeu: “Também não tem espaço para você a bordo deste barco. Junte suas coisas e vá embora”.

Seu estilo de liderança fica evidente numa das passagens de seu diário: “Estabelecemos uma pequena república a bordo do GjØa (…). Por experiência própria, decidi usar tanto quanto possível um sistema de liberdade a bordo – que cada um tenha o sentimento de ser independente dentro de sua própria área. Desse modo emerge, em meio a pessoas sensíveis, uma disciplina espontânea e voluntária, que vale muito mais do que a obtida compulsoriamente. Cada homem, assim, tem a consciência de ser um ser humano; é tratado como um ser racional, não como uma máquina (…) A vontade de trabalhar é muito maior – e , conseqüentemente, o trabalho realizado também. Estávamos todos trabalhando com vistas a uma meta comum e dividíamos com alegria todo o trabalho.”



Amundsen não tinha nenhum respeito pela hierarquia, mas prestava reverência ao conhecimento que cada um de seus homens carregava consigo. Foi esse tipo de comportamento que o aproximou dos esquimós Netsiliks, em meio à viagem. Os Netsiliks ainda viviam na Idade da Pedra, mas conheciam como ninguém os caprichos do gelo. Com eles, Amundsen aprendeu a construir iglus, a costurar roupas extremamente resistentes ao frio, que permitiam a circulação do ar e evitavam a transpiração. Aprendeu, sobretudo, como utilizar cães na tração de seus trenós. Foi justamente essa habilidade que o colocaria milhas à frente de Scott na conquista do Pólo Sul. (Scott, que jamais aprendeu a lidar com cães, preferiu submeter seus homens à tração dos trenós.) A missão de Amundsen, no entanto, não foi um sucesso total. A Passagem Noroeste foi transposta pela primeira vez. Mas, por muito pouco (exatamente 30 milhas), o Pólo Norte não foi atingido. Amundsen poderia ter levado homens e cães ao limite. Mas percebeu que o preço a ser pago seria alto demais. E, como já foi dito antes, ele não tinha a menor intenção de virar herói.



Anos mais tarde, durante a expedição ao Pólo Sul, Amundsen usaria a experiência acumulada em viagens anteriores. As roupas e as botas esquimós fariam com que sua equipe sofresse muito menos com as baixas temperaturas. Seus trenós, puxados por cães, e os esquis foram testados durante meses para que estivessem totalmente em ordem durante a expedição. Um de seus companheiros de viagem, o jovem Olav Bjaaland, era um virtuose no esqui de montanhas. Experiente, Amundsen também era um notável e obsessivo planejador. Para evitar que seus homens morressem de frio, de fome ou de sede durante a viagem, ordenou que acampamentos com estoques de suprimentos e combustível fossem instalados a uma distância razoavelmente curta uns dos outros. O cálculo de consumo de alimentos, propositadamente, sempre excedeu as necessidades. Afinal, era possível prever que condições os viajantes enfrentariam. A ração – composta de carne pilada em conserva, biscoitos, leite em pó e chocolate – fornecia vitaminas e energia suficiente para uma marcha conduzida por cães. Em meio à imensidão branca e inexplorada, os acampamentos foram devidamente marcados com bandeiras escuras e pilares de pedras, de modo a sinalizar o caminho de volta da expedição. Graças a isso, os cinco homens da comitiva norueguesa voltaram a seu navio o Fram (“avante”, em português), em boas condições físicas e psicológicas. Inspirados por Amundsen, nunca demonstraram ter dúvidas de que chegariam ao Pólo Sul e de que sairiam vivos da aventura.



O espírito de Scott, o derrotado


Autoconfiança não era, definitivamente, um dos atributos de Robert Falcon Scott. Na frente de seus homens, ele sempre parecia ter respostas para tudo, mesmo que não fizessem o menor sentido. Na intimidade, porém, ele temia a si próprio. Suas mensagens para a mulher, Kathleen, mostram dúvidas e autocomiseração. Em sua segunda e última expedição à Antártida, Scott tinha a seu lado pessoas de grande valor. Mas nunca soube reconhecê-las e, em alguns casos, fez questão se afastá-las temendo comparações. Criado nas tradições da Marinha real britânica, apreciava a subordinação incondicional, mesmo que levasse ao desastre do grupo.



A expedição Terra Nova, o barco de Scott, começou a desmoronar a partir do momento em que sua falta de liderança ficou evidente para o grupo. Na sua frente o grupo baixava a cabeça para as ordens e as decisões mais absurdas. Nos bastidores, seus homens mostravam-se desanimados com o comando capenga. “Antipatizo intensamente com Scott e jogaria tudo para o alto se não fôssemos a expedição britânica que precisa vencer os noruegueses”, disse, numa carta destinada à mãe, o oficial Lawrence Oates. “Scott sempre foi muito cordial comigo e tenho a reputação de me dar bem com ele. Mas o fato é que ele não é honesto, é sempre ele primeiro, o resto não conta. E, depois que ele tira de você tudo o que pode, você tem de se virar por conta própria.” Oates, filho da velha aristocracia e herói de guerra, foi o segundo componente da expedição a morrer durante o trajeto de volta. Atacado pelo escorbuto e pela gangrena e sentindo-se um peso morto para a equipe, deixou a barraca certa manhã e partiu em meio à nevasca para nunca mais ser visto de novo.



O maior defeito de Scott era a maior qualidade de Amundsen. Ele não conseguia – ou não queria – aprender nada com erros próprios ou alheios. Nos primórdios do século 20, já tentara alcançar o Pólo Sul a bordo do navio Discovery – sem sucesso. A viagem quase se transformou em tragédia por falta de planejamento e teimosia por parte do líder. Tentou usar cães esquimós, mas não sabia como alimentá-los e tratá-los. Diante do enorme índice de mortalidade em sua matilha, Scott decidiu que a tração canina era um fiasco, sem se questionar por que tudo havia dado errado. Seu grupo tampouco manejava bem os esquis, o que reduzia sensivelmente a velocidade da caminhada. Sem um plano de viagem, a equipe avançou muito pouco, adoecendo por falta de alimentação, de roupas adequadas devido aos enormes esforços a que foi submetida. A expedição foi salva graças à sorte, embora Scott insistisse em culpar o azar por todos os seus problemas.



Um dos homens a ser atacado pelo escorbuto foi Ernest Shackleton, reconhecido hoje como um dos maiores exploradores polares de todos os tempos. Há muito ele vinha incomodando Scott como uma liderança emergente. A doença de Shackleton caiu como uma luva para Scott. Serviu de explicação para o fiasco da primeira viagem e, ao mesmo tempo, para afastar um rival. Em 1909, Shackleton voltaria à Antártida a fim de recuperar sua honra. Chegou muito perto do pólo, transformando-se num fantasma para Scott. Seu feito só seria superado por Amundsen, dois anos depois.



A viagem do Discovery parece que não ter ensinado nada a Scott. Durante o intervalo entre as suas expedições, não se interessou por aprender sobre como manejar esquis ou cães. Insistiu na tração humana e usou, em parte do percurso, pôneis, que jamais conseguiram se adaptar às condições inóspitas do Pólo Sul. Comida e combustível foram estocados no limite mínimo necessário, em abrigos muito distantes uns dos outros e mal sinalizados, exatamente ao contrário do que fez Amundsen. Scott e os demais morreram porque não conseguiram localizar o depósito de comida que poderia ter salvo suas vidas. Seus homens não ousavam dar palpites, mesmo quando tudo parecia caminhar para o abismo. A fleuma de Scott também não permitiria que isso fosse feito. Sua estratégia e suas ordens eram oscilantes. Seus subordinados simplesmente não entendiam o que ele queria. Além disso, o líder mudava de idéia como mudava de humor.



Faltava-lhe foco. Após encarar a bandeira norueguesa hasteada por Amundsen e a derrota, Scott forçou seus homens a fazer estudos geológicos. Por quilômetros eles carregaram 15 quilos de pedras que, no final das contas, não serviam para quase nada. O desfecho da história dificilmente seria outro.


Fim de viagem


Pelo menos uma qualidade não pode ser negada a Scott: ele era um excelente contador de histórias. Seus diários o transformaram em herói da causa britânica. O próprio Amundsen, inábil na arte de comunicar seus feitos, chegou a sentir remorso por ter ganho a corrida. Pelo menos nesse ponto, Scott saiu-se vitorioso. Por muito tempo, seu fracasso ficou enterrado consigo sob a neve, em algum ponto da Antártida.



Depois da conquista do Pólo Sul, Amundsen continuou sua trajetória de explorador – era a única coisa que sabia e queria fazer. A vitória não lhe deu fama imediata nem dinheiro. Ao contrário. Endividado por causa da expedição, teve sua casa arrestada, e só não foi despejado porque seus amigos compraram a propriedade e deixaram que ele morasse lá até o fim de sua vida. Amundsen morreu em 1928, durante uma expedição aérea ao Ártico. Seu objetivo era resgatar o explorador italiano Umberto Nobile – por sinal, um desafeto. Por ironia do destino, Amundsen morreu como herói que nunca quis ser.


Fonte: Revista Exame – 30 de Outubro de 2002 – Pg. 122 á 127

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