O pior inimigo da empresa é a tradição
5 de fevereiro de 2019
Os 5 princípios da liderança relacional
5 de fevereiro de 2019

Como o estímulo ao trabalho voluntário pode transformar seus funcionários e sua empresa

Vinícius Ferreira, de 27 anos, é um dos engenheiros responsáveis pela operação da Samarco na cidade de Mariana, em minas Gerais. É também professor de cursinho. Toda terça à noite, depois de trabalhar por dez horas na Samarco, ele coloca as apostilas debaixo do braço e vai dar aulas de geometria para alunos carentes no Pré-Vestibular Caminho. Trata-se de um cursinho diferente. Foi criado e é mantido por voluntários da empresa. Gente que, como Ferreira, tem disposição para ensinar sem cobrar nada por isso. “Tive uma educação privilegiada, passei por uma boa universidade e estou terminando um mestrado”, diz Ferreira, que todos os dias dedica um tempinho à preparação das aulas sobre seno, coseno e tangente. “Achei que seria justo dividir um pouco desse conhecimento com pessoas que não tiveram a mesma sorte.”

O exemplo dos funcionários da Samarco ilustra o surgimento de um novo exército nas empresas instaladas no Brasil: o dos profissionais voluntários. São pessoas que, motivadas pela preocupação das corporações com a responsabilidade social, se propõe a dedicar algum tempo a projetos na comunidade. “Se há dois anos você falasse em empresas e voluntário, as pessoas logo pensavam em programas de desligamento voluntário, os famosos PDVs”, diz Maria Lucia Reis, braço direito de Milu Villela na presidência do Ano Internacional do Voluntariado. “Hoje não só todos sabem do que estamos falando como, em muitos casos, a iniciativa parte dos próprios funcionários, e não da direção da empresa.”

É difícil encontrar estatísticas no país sobre o tamanho exato desse exército. Algumas entidades fazem levantamentos pontuais. Cerca de 38% das pessoas que procuram o Centro de Voluntariado de São Paulo, por exemplo, vêm de empresas. O Ipea, na pesquisa Ação Social das Empresas, mostra quantas companhias se envolvem com o tema por região: 38% no Sul, 36% no Sudeste e 15% no Nordeste. Os exemplos não param de pipocar, e indicam a dimensão que esse tipo de trabalho está ganhando no mundo corporativo. Veja:

    • Todo o projeto de erradicação do analfabetismo entre adultos do Banco do Brasil é baseado no trabalho voluntário de funcionários, que atuam na capacitação de alfabetizadores em 27 estados.

    • Na Bahia Sul, 115 dos 800 funcionários participam de projetos sociais da empresa – entre eles, uma parceria com ex-alunos de MBA da USP para formação de gestores de entidades sociais.

    • Na Serasa, os voluntários representam quase um terço da força de trabalho. Eles identificam as necessidades de entidades, estudam soluções e fazem planos de captação de recursos.

    • No início deste ano, executivos da IBM colocaram na intranet um convite para que as pessoas participassem se um projeto piloto de voluntariado pela web. Em duas horas receberam 200 inscrições.

    • Em pouco mais de um ano de atuação no Brasil, a Endeavor, a ONG que apóia o empreendedorismo, já mobilizou 100 voluntários – a maioria líderes de grandes empresas, como Dante Iacovone, presidente da BCP, e João Bosco Silva, presidente da Alcan.

Algumas empresas estão despertando para o assunto graças ao apelo e à ampla divulgação do Ano Internacional do Voluntariado, promovido mundialmente pela ONU. É o caso do Aché Laboratórios, de São Paulo. No dia 8 de outubro, uma segunda-feira, seus 3 mil funcionários mudaram de rotina e participaram de uma jornada de voluntariado, com visitas a maternidades de 150 municípios. “O Ano Internacional está ajudando a aumentar a diversidade e a riqueza da mão-de-obra voluntária”, diz Milu Villela. “Há grandes eventos acontecendo nas empresas, e os auditórios das associações de classe estão lotando nas palestras sobre o tema.”

Outro grupo de companhias – dos quais fazem parte, por exemplo, C&A e Natura – já despertaram há mais tempo para as vantagens do voluntariado corporativo. Elas dizem respeito a todas as partes envolvidas no processo. As empresas ganham com funcionários mais comprometidos e uma melhor imagem no mercado. Os voluntários, com a oportunidade de exercer a cidadania e desenvolver habilidades como comunicação, criatividade e capacidade de alocar recursos e trabalhar em equipe. As entidades lucram ao receber algo fundamental para sua sobrevivência: competência de gestão.

A consciência desse ganha-ganha está fazendo com que os programas de voluntariado corporativo sejam tratados com mais seriedade. “O que há poucos anos era amadorismo se transformou em parte da missão das empresas e ganhou compromisso com resultados”, diz a consultora Ruth Goldberg, de São Paulo, especializada no assunto. “Os departamentos que cuidam do voluntariado estão mais profissionalizados, pesquisam melhores práticas, oferecem treinamentos e mantêm bancos de dados atualizados para casar os interesses das pessoas e da comunidade.”

A Samarco, por exemplo, criou comitês de trabalho em suas três unidades (Mariana e Belo Horizonte, em Minas, e Anchieta, no Espírito Santo) para acompanhar de perto o andamento do programa. Com isso, a participação dos funcionários nos últimos dois anos aumentou de 3% para 15%. “A empresa precisa tomar cuidado para não ser dona do programa”, diz Olinta Costa, gerente da Samarco e coordenadora das ações de voluntariado. “Ele é das pessoas e é fundamental que elas estejam na linha de frente.” No caso do Pré-Vestibular Caminho, a demanda foi percebida pelos próprios funcionários, que se mobilizaram para criar o cursinho e – só então – pediram o apoio da empresa.

Depois de criar um programa de voluntariado, muitas empresas enfrentam agora o desafio de gerenciá-lo. A consultora Ruth Goldberg enumerou alguns pontos fundamentais nessa etapa:

    1- Ter um gestor. Algumas empresas não viram o avanço em seus programas porque não souberam a quem delegar o projeto. “Incluir isso na rotina de uma pessoa que já está sobrecarregada não funciona”, diz Ruth. “O trabalho demanda muita dedicação e a coordenação e uma série de relações internas e externas.” É importante, portanto, que exista um responsável claro. Além de disponibilidade, ele deve ter capacidade de comunicação com todos os níveis da empresa. Importante: não se trata de ter alguém cuidando exclusivamente do programa (o que, em algumas empresas, até acontece), mas de garantir que ele seja administrado com a mesma eficiência dos demais investimentos da empresa.

    2- Avaliar permanentemente. Reuniões com voluntários e entidades são fundamentais para análises dos impactos e eventuais correções de rota. Pesquisas também podem ajudar. “A idéia é garantir que os objetivos sejam cumpridos e rever as necessidades dos funcionários e da comunidade, que podem mudar ao longo do tempo”, diz Ruth.

    3- Treinar sempre. Não só os voluntários precisam saber como agir nas entidades como elas precisam ser preparadas para recebê-los. “Todos devem discutir, de antemão, o próprio modo de gerenciar os voluntários e a forma como eles devem trabalhar.” As empresas podem oferecer cursos e promover discussões sobre direitos e deveres dos voluntários ou objetivos da política de responsabilidade social. Em alguns projetos, pode ser necessário treinar habilidades específicas.

Fonte: Revista Exame – Dezembro de 2001 – pg. 12 á 15

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ADQUIRA